Para entender o emaranhado de acontecimentos do filme “Coringa”, talvez o melhor seja começar pela infância. Arthur Fleck é um menino adotado por Penny Fleck, uma mulher com transtornos mentais (pensamentos obsessivos, alucinações etc.). Ao que tudo indica, ela trabalhou por muito tempo como empregada doméstica para Thomas Wayne, um homem influente em Gotham City que tentava ajudar os moradores e reerguer a cidade das cinzas.
A infância de Arthur
Ao observar sua infância, entendemos que Arthur não era um menino agressivo. Sua mãe dizia: “Ele estava sempre sorrindo”. Ao mesmo tempo, o namorado dela era agressivo e cometia violência doméstica: além de bater em Penny, também causou lesões no menino.
Nesse contexto, podemos perceber que a violência física e os golpes frequentes na cabeça — mencionados no prontuário de Penny Fleck — contribuíram para o desenvolvimento de transtornos mentais na criança. Mas, se analisarmos o filme mais a fundo, há outra teoria possível. Penny Fleck poderia ter mantido um relacionamento amoroso com Thomas Wayne. Por ser muito influente na sociedade, ele teria escondido o caso e levado Penny de propósito a delírios e pensamentos obsessivos, negando qualquer contato íntimo com ela. Talvez ele próprio tenha sido o agressor, batendo nela e na criança, além de ter falsificado o comprovante de adoção presente no prontuário do hospital psiquiátrico.
Ao pensar nisso, você também pode imaginar esse cenário, pois o filme rompe com limites e padrões de pensamento. Ele mostra que a realidade e a forma como você enxerga o mundo não se comparam ao universo que existe na mente do protagonista. Mas voltemos a Arthur. Ao mostrar como sua infância foi cruel, o filme permite supor que seu riso incontrolável, apresentado como um transtorno, começou a se desenvolver nessa época e se tornou mais evidente na vida adulta. Como mencionado acima, isso teria ocorrido por causa de um traumatismo craniano. Nesse caso, há algumas condições que poderiam explicar melhor os sintomas:
1) epilepsia gelástica: pode se desenvolver devido a um tumor benigno chamado hamartoma hipotalâmico; a pessoa passa por um estresse adicional que provoca crises de riso incontrolável;
2) síndrome pseudobulbar: devido a um traumatismo cranioencefálico, a pessoa chora ou ri involuntariamente por qualquer motivo; é uma condição neurológica;
3) labilidade afetiva: caracteriza-se pela dificuldade de controlar as emoções, com crises de riso e choro, e pode ser consequência de um traumatismo craniano.
A juventude do protagonista
A etapa seguinte da vida de qualquer pessoa costuma envolver escola, faculdade ou universidade. Como esses períodos não foram mostrados no filme, só podemos fazer suposições com base no Arthur adulto. Quando começamos a frequentar a escola e passamos algum tempo longe da família, tentamos assimilar as normas sociais e também levá-las para casa.
Nesse contexto, é possível interpretar que o protagonista apresentava características associadas à psicopatia e à sociopatia. É provável que, na infância, as outras crianças não o compreendessem, pois ele se destacava e era visto como “diferente”. Como podemos imaginar, a sociedade tentou moldá-lo para que se tornasse uma pessoa comum, considerada “normal”. Até a cena em que ele corre atrás dos adolescentes por causa da placa de propaganda pode lembrar a ingenuidade de uma criança que teve seu brinquedo arrancado e precisa lutar para recuperá-lo. Mesmo depois de ser espancado pelos adolescentes, Arthur não diz que eles são maus. Ele apenas comenta: “Bem, eles ainda são crianças e não entendem”.

Voltando à psicopatia e à sociopatia, ambas podem ser associadas ao afastamento do convívio social, à rejeição de normas e regras, à sensação de que tudo é permitido, à agressividade e ao egoísmo. Nesse caso, não haveria alteração do pensamento, e a pessoa compreenderia o que está fazendo. Ao atrair a atenção da sociedade para si — tema que veremos com mais detalhes adiante —, Arthur afirma no programa que o assassinato no metrô seria normal e teria libertado todos os moradores de sujeitos desprezíveis como aqueles. Por isso, na visão dele, as pessoas deveriam agradecer pelo que chamou de salvação.
Você já começou a compreender o protagonista?
Ao acompanhar Arthur Fleck adulto durante todo o filme, também conseguimos esclarecer alguns aspectos de sua vida confusa. Arthur mora com a mãe e, todos os dias, envia e verifica a correspondência para saber se Thomas Wayne respondeu. O que você pensa dessa situação? Essa rotina diária, constante e repetitiva que ele precisa suportar não parece assustadora? Além disso, ele ajuda a mãe a comer, toma conta do banho dela e, é claro, assiste ao programa favorito dos dois, apresentado por Murray Franklin.
Sem espaço pessoal e sempre preso às exigências da mãe, ele precisa aceitar o que acontece e ouvir as crises constantes dela por causa de Thomas Wayne. Ao tentar encontrar um lugar para si, o protagonista mergulha no stand-up, entendendo o gênero como um espaço para “piadas de humor ácido” sobre morte, violência e tentativas frustradas da infância.
Vamos fazer uma pausa neste ponto
Ao ver o caderno de piadas, você percebe de imediato que Arthur não registrava apenas seu humor. Ele também colava imagens simples e escrevia tudo o que sentia, com pensamentos como “O que mudaria se eu morresse?” e outros semelhantes. Os pensamentos negativos constantes e o agravamento da depressão pioram seu estado.
Observe que, em certos momentos, Fleck está abatido; em outros, fecha-se e não quer interagir com o mundo exterior; depois, demonstra hiperatividade, sente euforia e dança, liberando todas as emoções. Assim como a esquizofrenia, essa condição é descrita por muitos pesquisadores como relacionada a alterações nos genes, ou seja, teria um componente genético.
Por isso, ele precisava dos medicamentos para reduzir a agitação e controlar ao menos alguns processos do organismo. No filme, vemos Arthur frequentar consultas com uma psicóloga. No entanto, a falta de preparo da profissional aumentava ainda mais sua dificuldade de compreender as interações com outras pessoas. Como a ajuda recebida se limitava aos medicamentos, ele precisava fazer um grande esforço para se controlar. Quando os serviços sociais começaram a fechar e o acesso aos remédios foi interrompido, seus transtornos mentais se manifestaram plenamente. Entre os principais sintomas estavam as alucinações visuais e os delírios.
A síndrome paranoide, característica da esquizofrenia, exige tratamento contínuo, e os medicamentos ajudam a conter o avanço da doença. O protagonista enxerga uma realidade distorcida e acrescenta a ela acontecimentos que nunca existiram, aceitando como verdade as alucinações ligadas à vizinha. Sua mente brinca com ele e tenta apresentar uma “vida normal”, formada por trabalho, casa, namorada e encontros. A falta de atenção também contribui para essas alucinações, assim como a ausência de amigos, de apoio e até de alguém que simplesmente o escute, pois nem mesmo a psicóloga lhe dava a atenção necessária.
Mais detalhes sobre a socialização
Arthur não compreendia realmente o que era amizade. No trabalho, mantinha algum contato com Randall e Gary. Porém, ao ouvir a mentira de Randall, percebe que ninguém ali é seu amigo e que está sozinho, embora Gary o tratasse com gentileza.
Na verdade, como o próprio protagonista afirma ao implorar, em lágrimas, para não ser demitido, o trabalho lhe dava prazer. Mesmo assim, a demissão também se tornou um gatilho em sua vida. A solidão interior, os transtornos mentais, a interrupção dos medicamentos e a falta de alguém disposto a escutá-lo levam aos acontecimentos seguintes.
Em uma das alucinações, Arthur assiste com a mãe ao programa de televisão. No início, ele está sentado como um espectador comum, mas logo atrai toda a atenção e sobe ao palco para encontrar Murray. Ao ouvir as “palavras tão esperadas” com as quais sempre sonhou, sente uma felicidade imensa. Mais tarde, ao ensaiar como entraria de verdade no programa, ele esconde muito bem o ódio que levará consigo.
A cena final
Agora, vamos à cena em que o protagonista chama a atenção do público ao beijar a médica. Mesmo assim, ele continua ouvindo piadas negativas e comentários ofensivos a seu respeito, até concluir que imaginava Murray de outra forma. Arthur acreditava que seria compreendido e ouvido, mas acaba matando o apresentador por vingança e pela necessidade de atenção.
O efeito manada
Ao mesmo tempo, vemos no filme as pessoas que vieram antes da transformação definitiva de Arthur no Coringa. Ao assumir esse papel e mergulhar no personagem, ele “inspirou” outros a cometer as mesmas loucuras e agir sem pensar.
Esse fenômeno pode ser descrito como efeito manada: um pensamento coletivo que incentiva decisões irracionais e cria a impressão de que não haverá punição, seguindo a lógica de “se todos fazem, eu também posso fazer”. As decisões tomadas em grupo costumam ser mais tendenciosas e menos racionais do que as individuais. A ruptura com o sistema e a percepção de que alguém conseguiu quebrá-lo, abrindo espaço para a liberdade e para as emoções, levam ao caos. Na multidão, as interações não conduzem ao consenso, mas a decisões piores, pois surge um líder que parece assumir a responsabilidade pelos atos de todos.
Ao organizar a trajetória do personagem com base nos acontecimentos mostrados no filme, cada pessoa poderá chegar às próprias conclusões e construir sua linha de interpretação, fazendo perguntas como “O que eu faria nessa situação?”, “O que teria acontecido se...?” e “O que o motivou a agir assim?”, entre outras.
Você pode verificar sua própria predisposição a transtornos do espectro da esquizofrenia com o “Teste de predisposição à esquizofrenia”.